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INSEGURANÇA E AUTOESTIMA: QUANDO A BUSCA POR APROVAÇÃO SE TORNA PRISÃO
A insegurança não aparece de repente. Ela se infiltra aos poucos, quase sempre de forma silenciosa, até que um dia percebemos que estamos vivendo mais para corresponder ao olhar do outro do que para sustentar o nosso próprio desejo.
Priscilla Klinkerfus Dias
5/22/20264 min read


Para muitos adultos, especialmente aqueles que chegam à análise em momentos de crise, a insegurança se manifesta como um mal-estar difuso: uma sensação de inadequação, uma dúvida constante sobre si, um medo persistente de errar, decepcionar ou ser rejeitado.
A autoestima, nesse contexto, não é apenas “gostar de si”. É a capacidade de existir sem depender do aplauso externo para se sentir válido. E é justamente aí que a psicanálise se torna um espaço fundamental: ela permite investigar de onde vem essa necessidade de aprovação e por que ela se tornou tão determinante na vida adulta.
A origem da insegurança: quando o olhar do outro pesa demais
A insegurança costuma ter raízes profundas. Ela nasce em ambientes onde:
o amor vinha condicionado ao desempenho
o erro era punido com silêncio, crítica ou afastamento
a criança precisava “ser boa” para ser vista
havia exigência constante de perfeição
faltava validação emocional
Essas experiências deixam marcas. A criança aprende que:
ser amada depende de agradar
errar é perigoso
expressar necessidades pode gerar rejeição
o outro sempre sabe mais
seu valor está no que ela entrega, não no que ela é
Na vida adulta, isso se traduz em comportamentos como:
medo de tomar decisões sozinho
necessidade de pedir opinião para tudo
dificuldade de dizer “não”
autocobrança excessiva
perfeccionismo paralisante
sensação de ser “menos” que os outros
busca constante por aprovação
A insegurança, portanto, não é falta de força — é excesso de defesas construídas para sobreviver emocionalmente.
A busca por aprovação como forma de sobrevivência psíquica
Para muitos adultos, agradar se tornou uma forma de existir. Não é escolha consciente — é estratégia de sobrevivência.
A pessoa insegura:
lê o ambiente o tempo todo
tenta prever expectativas
adapta seu comportamento para evitar conflito
se molda ao que imagina que o outro deseja
evita se posicionar para não correr riscos
Isso gera uma vida vivida “de fora para dentro”. O sujeito se torna especialista em perceber o outro, mas estrangeiro de si mesmo.
E quanto mais tenta agradar, mais se afasta do próprio desejo — e mais inseguro se sente.
O perfeccionismo como defesa
O perfeccionismo é uma das faces mais comuns da insegurança. Ele funciona como uma tentativa de evitar críticas, rejeição ou fracasso.
A lógica inconsciente é:
“Se eu fizer tudo perfeitamente, ninguém poderá me abandonar, criticar ou rejeitar.”
Mas o perfeccionismo cobra um preço alto:
exaustão
procrastinação
medo de começar
medo de terminar
sensação de nunca ser suficiente
comparação constante
vergonha do próprio erro
O perfeccionismo não protege — aprisiona.
A crise como ponto de virada
Muitos adultos só procuram análise quando a insegurança começa a gerar consequências concretas:
crises nos relacionamentos
dificuldade de sustentar escolhas
ansiedade intensa
sensação de vazio
paralisia diante de decisões importantes
medo de perder o controle
exaustão emocional
A crise, embora dolorosa, é um convite. Ela sinaliza que a estrutura que sustentou a vida até aqui não dá mais conta — e que algo precisa ser revisto.
O que a psicanálise faz com a insegurança
A psicanálise não oferece técnicas para “aumentar a autoestima”. Ela oferece algo muito mais profundo: um espaço para investigar a história que construiu essa insegurança.
No processo analítico, o sujeito começa a:
reconhecer padrões que se repetem
entender por que busca aprovação
perceber de onde vem o medo de errar
nomear afetos que antes eram confusos
diferenciar o desejo próprio do desejo do outro
sustentar escolhas sem precisar de validação externa
A análise não “ensina” confiança — ela revela o que impede o sujeito de confiar em si.
A importância da transferência
Na psicanálise, a relação com o analista se torna um espelho seguro onde o sujeito pode experimentar novas formas de existir.
A pessoa insegura, por exemplo, pode:
tentar agradar o analista
ter medo de decepcioná-lo
evitar falar de certos temas
buscar aprovação nas sessões
E é justamente aí que o trabalho acontece. O analista não julga, não exige, não cobra perfeição. Ele sustenta um espaço onde o sujeito pode, pela primeira vez, não precisar agradar para ser acolhido.
Esse é um dos movimentos mais transformadores da análise.
Quando a insegurança se manifesta nos relacionamentos
Adultos inseguros costumam viver relações marcadas por:
medo de abandono
ciúmes
dependência emocional
dificuldade de impor limites
tolerância a situações abusivas
necessidade de ser “indispensável”
dificuldade de se separar
A insegurança cria vínculos onde o sujeito se anula para manter o outro por perto.
Na análise, ele começa a perceber:
que não precisa se diminuir para ser amado
que o amor não deve custar a própria identidade
que limites não afastam — protegem
que relações saudáveis não exigem sacrifício constante
A construção de uma autoestima real
A autoestima verdadeira não é um mantra, nem uma técnica. Ela é consequência de um processo interno de:
reconhecer a própria história
elaborar feridas antigas
diferenciar expectativas externas do próprio desejo
sustentar escolhas
aceitar limites
reconhecer vulnerabilidades
construir autonomia emocional
A autoestima nasce quando o sujeito deixa de viver para agradar e começa a viver para existir.
O que muda quando a insegurança perde força
Ao longo do processo analítico, muitos pacientes relatam mudanças como:
maior clareza sobre o que querem
menos medo de errar
mais capacidade de dizer “não”
menos necessidade de aprovação
relações mais equilibradas
decisões mais firmes
menos comparação
mais autenticidade
Não é um processo rápido. Mas é um processo real.
Quando procurar ajuda
Você não precisa esperar a crise explodir para buscar análise. Mas alguns sinais indicam que é hora de conversar com um profissional:
medo constante de decepcionar
dificuldade de tomar decisões
sensação de inadequação
autocobrança excessiva
relações desgastantes
ansiedade intensa
vergonha de ser quem é
sensação de não ter valor
A insegurança não é destino — é história. E histórias podem ser elaboradas.
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